domingo, 5 de setembro de 2010

João Manuel, São Francisco.

Boné branco. Uns 40 e poucos anos (talvez mais). Uma distância de quase 10 metros. Eu, um muro laranja. Ele pinta o outro de branco. Um muro branco com portão branco. Vejo apenas seu lado direito. Ele esfrega o rolo indo e voltando. Ora em distâncias mais curtas, ora em distâncias mais longas. Ouço uma música abafada. Ele escuta uma rádio popular. O sol, a rua sem movimento, o chão de paralelepípedos. Tudo lembra uma cidade do interior. A música deve falar de algum sofrimento amoroso. Ou, talvez, sobre fé. Agora ele pinta o lado de dentro. Só vejo o braço em seu movimento ritmado. Tudo parece mesmo um pouco caipira. Uso um chapéu de palha e chinelos. Encostada em minha bicicleta de cestinha. Voltei a enxergar o homem inteiro. Seu tênis é cinza sujo, meias beges, calça do exército. Tudo tem um tom meio encardido. Acho que a camiseta um dia foi branca. Ele se afastou para analisar o muro. Percebi que ele é meio pançudo. Me deu uma olhada rápida. Deve se chamar Antônio. Imagino uma plaquinha de "Tonhão: Reformas e Pinturas de Parede". Meio ridículo demais. Acho que não existe placa nenhuma. Essa é a única casa branca da quadra. (Acabei de descobrir que não é uma casa). É o único predinho da quadra. Ele colocou um paninho rosa/roxo para ele pisar. Aposto que foi a síndica quem deu. Ele não parece ser muito cuidadoso. Ninguém é quando se trabalha durante um feriado que vai de sábado à quarta. Eu tentei desenhá-lo, mas não consegui. Isso foi antes de começar a escrever. Estou esperando há 24 minutos. Não sei quanto tempo se demora para almoçar. Tem um orelhão em frente ao muro que está sendo pintado. E tem uma placa de restaurante do lado. Diz "massas e mignon". Achei engraçado o nome. "Sacristia". E, embaixo, tem um aviso: ar condicionado. Não sei exatamente o que significa "sacristia", mas imaginei um monte de padres almoçando. Isso explicaria o ar condicionado. Batinas devem dar calor no verão. O muro é pequeno mas parece não terminar nunca. Putz, existe outro prédio na quadra. Está atrás de mim, por isso não vi. Só percebi por causa da sombra que está me dando frio. Agora já são 30 minutos. Acho que eu já teria terminado de almoçar. Até de pintar. Mentira, não teria terminado o muro, não. O estilo "fluxo de consciência" deve ter começado da espera de alguém que não sabia desenhar e resolveu escrever. Por sorte eu trouxe papel. O cara abandonou o rolo na calçada. Deve ter ido ao banheiro. Seria engraçado se ele voltasse e me visse pintando o seu muro. Eu me faria de desentendida se eu conseguisse não rir. Mas eu com certeza riria. Ía me esconder de vergonha, sei lá. Por isso não vou lá. (Agora tá tocando uma música em que eu consegui distinguir a palavra "baby"). Nossa, o pintor sorriu pra mim e falou "tudo bom?". Até parece que sabe que estou falando dele. Respondi com um aceno simpático de cabeça. Talvez eu seja assaltada agora. Tem um cara estranho passando. Foi reto. Mas ficou um tempo na esquina olhando pra cá. Ignorei. O "Antônio" pegou uma garrafa de guaraná e um pedaço de pão. Atravessou a rua para ver se o muro está ficando bom. Percebi que ele usa óculos e tem mais do que 40 e poucos anos. A garrafa é de vidro, retoma o ar interiorano. Tô quase indo pro outro lado da rua por causa do frio. Eu podia ficar no sol já que estou de chapéu. Acho que vou mudar. Muito melhor. Incrível como o sol faz diferença. Mesmo que o ar abafado se espalhe. Daqui, vi que o restaurante é no piso térreo do prédio de muro branco. São quatro andares e o último tem um apartamento a venda. Agora ele está pintando o portão. O rolo continua na calçada porque ele está usando outro. Sabe-se lá por que. 45 minutos. Odeio esperar. Fico com vergonha de que as pessoas percebam que alguém se atrasou para me encontrar. O que será que o pintor pensa a respeito? Ele não deve achar que eu simplesmente parei encostada numa bicicleta para escrever. Seria legal se eu tivesse uma daquelas cadeiras de praia. Daquelas coloridas e dobráveis. Aí eu faria igual àqueles velhos que sentam na calçada para olhar o movimento. Com esse chapéu eu até teria coragem de falar "boa tarde" para quem passasse. Ô droga, agora minhas pernas estão fritando por baixo da calça. É uma calça de flanela xadrez. E meu chinelo novo tem uma estampa meio hippie, colorida. Não sei porque estampam justamente a parte que é coberta pelo pé. Acaba só aparecendo as fitinhas azuis. Estou me arrependendo de todas as vezes que fiz alguém me esperar. Passaram dois caras fumando maconha. Andando de leve, devagarinho. Deixaram um rastro cheiroso para trás. Acho que a única utilidade de fumar cigarro é ter algo pra fazer enquanto se está sozinha na rua (ou em uma festa). Eu mesma já teria fumado uma carteira agora. Penduraria um paiero no canto da boca e a lapiseira na orelha. Meu celular tá tocando. Pronto, conversa rápida. (Rodrigo). O céu tá tão limpo, azul clarinho. E tem vários pássaros voando na mesma direção. Uma árvore daquelas que têm umas bolinhas roxas. Quando eu era criança, achava que essas frutinhas eram alpiste. Nem sei se são frutinhas, nunca descobri. O pintor deve mesmo estar intrigado com essa minha permanência. Já olha pra cá sem precisar disfarçar. Tô me sentindo uma idiota. E com muito calor. Só que me recuso a trocar de lado de volta. Pareço mesmo uma idiota. E saí tão apressada de casa. Com as ruas vazias foi ainda mais rápido. Celular novamente. (Marcão). Meu amigo se fingiu de ovelha. Que campestre! O chapéu esconde meu celular. Parece que tô falando sozinha.

(O relato foi interrompido pela chegada de quem eu esperava. E descobri: eu não precisava ter ficado esperando. Isso que dá não ouvir o que foi dito e, mesmo assim, responder).

Um comentário:

Caroll. disse...

é sempre bom observar...hehe..hmm que vontade que deu de ir no sacristia...é bom ^^