quinta-feira, 29 de março de 2012

orvalho.

sou mesmo bicho esquivo
correndo descalço no meio
do mato
sou mesmo feito silêncio da noite

(o amanhecer de um orvalho)

sou nua repleta de galhos
entregue à brisa verde
do tempo passado

sábado, 17 de março de 2012

hello, saturday.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

deixa a tempestade nos beijar.

Às vezes eu penso que ninguém deveria deixar de responder uma carta honestamente escrita.

Às vezes eu penso que sempre estivemos dançando uma mesma dança. Não necessariamente juntas, mas acompanhando os mesmos passos - um pra frente, dois pra trás. Até que nos distanciamos tanto que não mais notamos que a coreografia é a mesma.
Mas nesse salão as pessoas sempre se encontram e depois se vão.
Talvez simplesmente não seja um ritmo de se dançar a dois.

E eu sou mesmo daquele tipo desengonçado que pisa no pé, que não sabe conduzir - mas que também não quer ser conduzida. Do tipo ansioso que não vê a hora da música acabar ou recomeçar.
O problema é que também sou do tipo que volta pra casa cheia de resquícios. Ainda cantarolando o mesmo som. Ensaiando como poderia ter sido, como eu queria ter encontrado o compasso certo.
Lembrando do rosto de quem chegou tão perto.

Fico imaginando como seria bom que toda conversa ao pé do ouvido fosse sincera. Que mesmo que a melodia soasse muito mais alta, a gente escutasse a voz do nosso próprio par.
E que cada palavra fosse tão bem entendida que não precisássemos de mais nada além das notas musicais.
Mas eu não conheço nenhuma canção que possa fazer de mim melhor bailarina. Tampouco sei falar por instrumentos e linhas de partitura.
Eu estou sempre fora de tempo, você sabe.

Continuo apostando na imprevisibilidade. Insisto - nada é definitivo.
Mesmo que seja sempre o mesmo disco a rodar e rodar novamente.
A gente tem mesmo é que ensaiar.

Palavras são uma injustiça. Nós simplesmente as entregamos ao outro e ele que lide com elas.
Só que o silêncio é tão mais cruel, minha querida. É lá que todas as palavras se escondem.
E quando se é uma caçadora surda como eu... - você sabia que eu fiquei surda? Não, não completamente. Mas agora é só um ruído que me acompanha. E, se tento decifrá-lo, só encontro ausência.
Não escuto o timbre agudo dos pássaros. Mas você, passarinha, já nem canta mais.
Eu sei, esse miado mais parece choro. É que eu-gato ficou preso na gaiola enquanto a presa voou, voou.

'Presa', que palavra horrível. Nunca foi presa, sempre te quis livre. Marcar território é coisa de outra espécie - não é coisa minha. Talvez justamente esse o meu erro. Não sei.
Mas, se amar não fosse triste, não haveria valsa, samba, bossa, rock. Nem mesmo haveria poesia.
E o que seria da tristeza sem a beleza da triste poesia?

Queria acreditar que toda carta honestamente escrita fosse lida.

E que suas asas, respondendo, enviassem até mim o que restou de amor.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Salar de Uyuni.

sábado, 10 de dezembro de 2011

"Meu vermelho, teu branco, o preto da tinta na nossa pele"

Só pisar no preto. Só pisar no branco. Não pisar nas linhas.

(fio vermelho que se enrosca, enrola, faz nó e depois nos une em uma trança de dois cabelos)

Eu e ela, sempre um pé no chão. Sempre um pé suspenso, um que se adianta.
Pouse junto.Ou não me deixe só. A música sempre me faz pensar em você.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

condenação.

se eu fosse
mas não sou
então não sei
o que
se ser
significa

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Espelho de AnA

Estreia dia 22, terça-feira, no Teatro da Caixa às 19h!

sábado, 17 de setembro de 2011

16setembro.

Meu caixão
é cheio
d'água

Coroa de flores regadas
Choro de pedras por mim

Um pássaro morto
voou
voou

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

daydreamer.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

quinta-feira, 21 de julho de 2011

recolhendo páginas do diário:

Domingo, 10 de julho de 2011.

Essa noite, acordada, sonhei com várias mandalas coloridas. Sobrepunham-se. Movimentavam-se. Copiavam o ritmo de organização caótica do universo. Senti que estava flertando com dois anos atrás, desafiando o giro do tempo. Tão mais rápida do que o mundo. Achei que nunca mais fosse dormir. E aqueles desenhos eram todos tão bonitos. A forma como se abriam de um miolo e se propagavam. Um a um, tão abertos ao resto. Cada ritmo de traços contribuindo com uma mesma música gráfica. A própria imagem do meu descompasso com o mundo. Fechando-se ao mesmo tempo em que se espalhavam. Continuavam a dançar até mesmo quando eu abria os olhos. Era tão impossível - mas tão natural - controlá-las. Não lembro em que momento adormeci.

...

- E então, o que você vê? - perguntou enquanto lhe oferecia o caleidoscópio.
- Eu vejo pedras.

(recorte de lembranças alheias)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

vôo #07


desenhos de setembro de 2007.

domingo, 17 de julho de 2011

impalpável.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

un autre lac des cygnes

je suis tombé dans une taquenard
de la cygne-odette e sa malédiction
elle a besoin d'un amour éternel
sincère comme je l'aime bien

les soirs, elle est une princesse
et moi, je suis une chasseuse
avec une flèche et une fleur
pour toucher - et voler - son coeur

'odette, s'il vous plaît
dansez ma triste chanson'
elle, dans le ciel, m'a dit
'je ne peux pas, chère amie,
pas... pas sincèrement'

sábado, 16 de abril de 2011

são tantas imagens

sem palavra alguma.

quinta-feira, 3 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

prefixo meta para a falta de linguagem.

Leio de novo e de novo. Como se quem lesse fosse cada um de vocês.
Sinto medo das palavras. Dessas palavras que não. Que se interrompem assim.
Mas as agarro. Agarro para poder soltá-las. Saltá-las todas. E me livrar dessa angústia que é viver em frases – fases – de pontuações rápidas. Incertas.
Ah, se eu pudesse me livrar de medos. Se eu também os saltasse. Se eu pudesse alongar as frases. Se elas fossem intermináveis.
- e se eu pudesse enfim terminar.
Não é como falar rápido. Essa melancolia agressiva. Raivosa. São falas em pausas. São silêncios e recolhimentos.
Cada palavra é pensada. Hesitada.
- ah, se eu pudesse enfrentá-las como gostaria de enfrentar vocês.
Elas são suas. E deles. Não, não as quero pra mim. Elas doem. Escondem-se – todas – nesse silêncio morto.
E escrever é se entregar. Ficar a mercê. Não adotar – nem rejeitar – o descompasso do ritmo. É revelar por omitir. E - enfim - aceitar se perder.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

declaração de amor.

baby, you are the girl who would make me carry a photo in my wallet.

but, you know, my money still in my poket.


domingo, 23 de janeiro de 2011

muda (ou surdo)

(um poema divertido)

O meu gato tem ciúmes da literatura
Ele não pode ler
que o que eu escrevo é sobre ele

Talvez
se eu poesasse em miauês

Mas aí seria música
não texto
E tem linguagem mais sincera
do que um longo cafuné?

sábado, 22 de janeiro de 2011

Transversal.

Quando ouço uma flauta
que se esforça
para alcançar
o extremo
de seu agudo

Não deixo de imaginar o
músico como
um amante

- o instrumento
o corpo -

Envolvidos no simultâneo
de um
orgasmo

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

não vou dizer que te escrevi.

você me diz que só um amor não realizado pode ser romântico.
eu te digo que já tenho uma coleção.
você me diz que eu me apaixono o tempo todo.
eu te digo que cada uma é diferente.
você me diz que não pode me levar a sério.
eu te digo que a verdade não existe.
você me diz pra ter paciência.
eu te digo que prefiro a intensidade.
você me diz pensamentos no ar.
eu te digo que o silêncio também é barulho.
você me diz pra te raptar.
eu te digo pra me procurar.
você me diz não ter nada para dar.
eu te digo que a próxima vez um beijo.
você me diz não saber o que quer.
eu te digo que vou querer o mundo.
você me diz não viver na realidade.
eu te digo que invento histórias.
você me diz não me entender.
eu te digo coisas embaralhadas.
você me diz para ser sincera.
eu te digo para ser humana.
você me diz que prefere a sinceridade.
eu te digo que prefiro a proteção.
você me diz que tenho alguns ataques.
eu te digo que só faço é drama.
você me diz gostar muito de mim.
eu te digo que é melhor assim.
você me diz não conseguir se abrir.
eu te digo só pra abrir as pernas.
você me diz com olhos indignados.
eu te digo que eu não presto mesmo.
você me diz que eu sou um caso a parte.
eu te digo algumas risadas doces.
você me diz que são 14 olhando.
eu te digo que ninguém aqui se importa.
você me diz para ser objetiva.
eu te digo algo sem sentido.

você me diz que sim.

eu te digo como?.
você me diz que não.
eu te digo quanto?.

você me diz pra não perguntar
mas apenas sentir.

eu canto "you baffle me".

(Um amor inventado e/ou mentiras sinceras, Cazuza. Da próxima vez, Gadú e Gugu. Além de uma pintura surrealista, Magritte)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

anotações.

o louquinho tava na chuva
na mesma rua de sempre, passeando
olhando sei lá o quê (que?)

até pedi pra tirar uma foto
da sacola que ele usava na cabeça feito capacete
daquelas das compras de supermercado

mas ele fez cara de bravo
e não deixou, né

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Avenida Paulista.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Barbante e escova de dentes.

Durante o sono, nossas pupilas são pequenininhas. Mesmo sem luz.

A maior cama do mundo. Dava pra se perder. Pra te perder e te encontrar. Em pedaços - que pareciam se espalhar - os meus e os seus. E a proximidade parecia sempre distante. O escuro, a não-visão. O movimento repentino de sentar e se ausentar. E a dúvida, a dúvida, a dúvida.
Hesitação e excitação ocupando os mesmos gestos. Ou aqueles gestos que não aconteceram. A gente pensa e não diz - ou sente e não diz.

Você. Você senta... e não diz. Porque não pode dizer. E eu sinto... e não sento. Porque não posso pensar.

A maior cama do mundo. A própria dimensão do sonho. Grande por não ser feita de espaço. Não ser feita de tempo. (São só os nossos pedaços). O universo não desenhado nas paredes. Feita na medida do amor tanto quanto qualquer outra. (Tanto quanto Hiroshima ou Nevers).
Porém, maior.
Para que não se ache respostas - e nem as perguntas - para as dúvidas que cabem ali.


Os olhos abrem. As pupilas crescem. Ainda não se vê nada.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

palavra cruzada.

A noite tece
a noite céu

O escuro é ser
escuro é seu

ou

Anoitece
anoiteceu

O escurecer
escureceu

ou

Anoitece
a noite céu

O escuro é ser
escureceu

ou

simplesmente fazer as palavras palavrearem.

modelo, pinga e vaidade.


Um fantasma me cobrou 2 reais pelas fotos do seu banho.
Não paguei.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Nunca tinha visto um lobo antes.

Encarava-me com indiferença. Não, com desdém. Seus olhos de pupilas cada vez maiores eram como os de um predador. Acusavam-me com raiva, com fome, com pudor. E eu, a presa, preparava-me para encarar o bote. Desprevinida. Foi rápido, certeiro e doído. Mas eu resisti. E o ataque continuou. Até que, cansada e machucada, eu me rendi. As feridas sangravam e eu não conseguia correr, fugir. Fiquei ali, chorando a impossibilidade. Vai, termina com isso! Rasga de morte ou devora! Mas recuou sem me dar chance. Deixou-me assim, inacabada. E agora os olhos eram de dúvida. Dúvida para mim, que já não conseguia diferenciar o que era meu e o que era fera. Sobrou o silêncio e a falta. Nem morte, nem vida. Fiquei ali na metade do caminho. Sofrendo. Mas incapaz de sentir.

(E se me restassem forças para escolher? Seria a morte o final. De quem? Eu já não sei).

sábado, 18 de setembro de 2010

Esferas.

Capítulo I - Argumento

Decarte.
D E S C A R T E S.
René Descartes.
Ou cartesianismo mesmo.

Capítulo II - Prefação às avessas

Bigodinho, olhos de pálpebras grandes, sobrancelhas desafiadoras, um olhar meio de peixe morto.

Um cara chato.

Capítulo III - Método

Verificar. Analisar. Sintetizar. Enumerar.

Capítulo IV - Mise en Scène

Olhos dilatados como o felino prestes a atacar a presa.

Capítulo V - Epílogo (em construção)

O simples se resume em unidades complexas e inclassificáveis
.

Posfácio -
O complexo não se resume.

Seus elementos, vistos isoladamentes como significantes, perdem o verdadeiro significado.

(isso aí em cima é uma merda racionalizada e teorizada)

(isso aí embaixo é humanidade)


grito um foda-se - por imcompreensão.
depois, grito por amor a não sei quem.
nem sei de onde.

domingo, 5 de setembro de 2010

João Manuel, São Francisco.

Boné branco. Uns 40 e poucos anos (talvez mais). Uma distância de quase 10 metros. Eu, um muro laranja. Ele pinta o outro de branco. Um muro branco com portão branco. Vejo apenas seu lado direito. Ele esfrega o rolo indo e voltando. Ora em distâncias mais curtas, ora em distâncias mais longas. Ouço uma música abafada. Ele escuta uma rádio popular. O sol, a rua sem movimento, o chão de paralelepípedos. Tudo lembra uma cidade do interior. A música deve falar de algum sofrimento amoroso. Ou, talvez, sobre fé. Agora ele pinta o lado de dentro. Só vejo o braço em seu movimento ritmado. Tudo parece mesmo um pouco caipira. Uso um chapéu de palha e chinelos. Encostada em minha bicicleta de cestinha. Voltei a enxergar o homem inteiro. Seu tênis é cinza sujo, meias beges, calça do exército. Tudo tem um tom meio encardido. Acho que a camiseta um dia foi branca. Ele se afastou para analisar o muro. Percebi que ele é meio pançudo. Me deu uma olhada rápida. Deve se chamar Antônio. Imagino uma plaquinha de "Tonhão: Reformas e Pinturas de Parede". Meio ridículo demais. Acho que não existe placa nenhuma. Essa é a única casa branca da quadra. (Acabei de descobrir que não é uma casa). É o único predinho da quadra. Ele colocou um paninho rosa/roxo para ele pisar. Aposto que foi a síndica quem deu. Ele não parece ser muito cuidadoso. Ninguém é quando se trabalha durante um feriado que vai de sábado à quarta. Eu tentei desenhá-lo, mas não consegui. Isso foi antes de começar a escrever. Estou esperando há 24 minutos. Não sei quanto tempo se demora para almoçar. Tem um orelhão em frente ao muro que está sendo pintado. E tem uma placa de restaurante do lado. Diz "massas e mignon". Achei engraçado o nome. "Sacristia". E, embaixo, tem um aviso: ar condicionado. Não sei exatamente o que significa "sacristia", mas imaginei um monte de padres almoçando. Isso explicaria o ar condicionado. Batinas devem dar calor no verão. O muro é pequeno mas parece não terminar nunca. Putz, existe outro prédio na quadra. Está atrás de mim, por isso não vi. Só percebi por causa da sombra que está me dando frio. Agora já são 30 minutos. Acho que eu já teria terminado de almoçar. Até de pintar. Mentira, não teria terminado o muro, não. O estilo "fluxo de consciência" deve ter começado da espera de alguém que não sabia desenhar e resolveu escrever. Por sorte eu trouxe papel. O cara abandonou o rolo na calçada. Deve ter ido ao banheiro. Seria engraçado se ele voltasse e me visse pintando o seu muro. Eu me faria de desentendida se eu conseguisse não rir. Mas eu com certeza riria. Ía me esconder de vergonha, sei lá. Por isso não vou lá. (Agora tá tocando uma música em que eu consegui distinguir a palavra "baby"). Nossa, o pintor sorriu pra mim e falou "tudo bom?". Até parece que sabe que estou falando dele. Respondi com um aceno simpático de cabeça. Talvez eu seja assaltada agora. Tem um cara estranho passando. Foi reto. Mas ficou um tempo na esquina olhando pra cá. Ignorei. O "Antônio" pegou uma garrafa de guaraná e um pedaço de pão. Atravessou a rua para ver se o muro está ficando bom. Percebi que ele usa óculos e tem mais do que 40 e poucos anos. A garrafa é de vidro, retoma o ar interiorano. Tô quase indo pro outro lado da rua por causa do frio. Eu podia ficar no sol já que estou de chapéu. Acho que vou mudar. Muito melhor. Incrível como o sol faz diferença. Mesmo que o ar abafado se espalhe. Daqui, vi que o restaurante é no piso térreo do prédio de muro branco. São quatro andares e o último tem um apartamento a venda. Agora ele está pintando o portão. O rolo continua na calçada porque ele está usando outro. Sabe-se lá por que. 45 minutos. Odeio esperar. Fico com vergonha de que as pessoas percebam que alguém se atrasou para me encontrar. O que será que o pintor pensa a respeito? Ele não deve achar que eu simplesmente parei encostada numa bicicleta para escrever. Seria legal se eu tivesse uma daquelas cadeiras de praia. Daquelas coloridas e dobráveis. Aí eu faria igual àqueles velhos que sentam na calçada para olhar o movimento. Com esse chapéu eu até teria coragem de falar "boa tarde" para quem passasse. Ô droga, agora minhas pernas estão fritando por baixo da calça. É uma calça de flanela xadrez. E meu chinelo novo tem uma estampa meio hippie, colorida. Não sei porque estampam justamente a parte que é coberta pelo pé. Acaba só aparecendo as fitinhas azuis. Estou me arrependendo de todas as vezes que fiz alguém me esperar. Passaram dois caras fumando maconha. Andando de leve, devagarinho. Deixaram um rastro cheiroso para trás. Acho que a única utilidade de fumar cigarro é ter algo pra fazer enquanto se está sozinha na rua (ou em uma festa). Eu mesma já teria fumado uma carteira agora. Penduraria um paiero no canto da boca e a lapiseira na orelha. Meu celular tá tocando. Pronto, conversa rápida. (Rodrigo). O céu tá tão limpo, azul clarinho. E tem vários pássaros voando na mesma direção. Uma árvore daquelas que têm umas bolinhas roxas. Quando eu era criança, achava que essas frutinhas eram alpiste. Nem sei se são frutinhas, nunca descobri. O pintor deve mesmo estar intrigado com essa minha permanência. Já olha pra cá sem precisar disfarçar. Tô me sentindo uma idiota. E com muito calor. Só que me recuso a trocar de lado de volta. Pareço mesmo uma idiota. E saí tão apressada de casa. Com as ruas vazias foi ainda mais rápido. Celular novamente. (Marcão). Meu amigo se fingiu de ovelha. Que campestre! O chapéu esconde meu celular. Parece que tô falando sozinha.

(O relato foi interrompido pela chegada de quem eu esperava. E descobri: eu não precisava ter ficado esperando. Isso que dá não ouvir o que foi dito e, mesmo assim, responder).

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A verdade

são os gatos.

Juscelino e os aviões.

Homenagem ao Kubitschek. Ele já foi logo avisando. Mas gostou mesmo foi de Matias. Que nome legal, cara. Apertou nossas mãos ao se apresentar. As mãos dela são pequenas, né? Sorriu aquele sorriso banguela e infantil ao constatar. No céu azul marinho sem estrelas via-se uma única luz. Som de avião. Vocês já andaram em um desses? Em um desses aí? Juscelino tem medo de avião. Rápido demais. Alto demais. Prefere mesmo é ir andando. Matias (que nome legal), cuida da Camila, hein? Juscelino é conhecido por ali. Freqüenta o bar da chinesa. Chinesa que não tem nome de chinesa, uma tal de Paulina. Conseguiu um golinho. Uma tragadinha no paiero. O bar fica ali ao lado do restaurante indiano, vou te apresentar. Mas noite de domingo, segunda é dia de trabalhar, né? Mas eu acompanho vocês, eu acompanho vocês.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

auto-retrato II

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

é palhaçada mesmo.


Mais vale o meu pranto que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas
Abre essa janela, a primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota

Casa Pré-Fabricada - Los Hermanos

fotos: Raysa Fontana
maquiagem: Ana Valério

quinta-feira, 22 de julho de 2010

domingo, 4 de julho de 2010

aurinko.

o estar é o agora
do ser

e o ser é a indiscrição
do sou

(o sou é um resquício do sol)

ou uma forma
minha
de ser sua

terça-feira, 22 de junho de 2010

le pont.

domingo, 20 de junho de 2010

#01


homenagem ao meu irmão, Marco.


muro: Camila Macedo e Raysa Fontana.

domingo, 13 de junho de 2010

Ing x Eua

Adoro bar com cara de bar. Boteco de estrada, tiozão assistindo tevê.
A gente senta aqui e assiste ao jogo. Acompanha na cerveja? Pode deixar que eu corto as ilustrações.
Vocês são artistas, né? Seu trabalho é muito bonito. Atriz? Não, não, não de teatro.
O banheiro é limpo e com papel. Acho que somos as únicas mulheres. Vantagem, vantagem.
Vocês querem ir a um churrasco no Paraguai?
Aquele senhor português foi expulso da Europa. Aos 17 anos ele pixou um muro criticando o Salazar. Morava na fronteira com a Espanha. Ele sabe quem é Marx e quem é Lenin. Gostei dele. Ele gostou da minha boina. Disse que somos esquerdistas.
E aquele advogado estava indo contra a lei. Pediu que eu dissesse uns números, acho que 4 deles. Ele escolheu o bicho. E apostou 30 reais, no meu nome e no dele. Disse que a gente pode ganhar uns 17 paus. Passou o número pra eu ligar pedindo o resultado.
Perguntei se ele era casado. Sim. Perguntei se ele traia a mulher. Sempre. Perguntei se ele a amava. Não. Perguntei se a respeitava. Com paixão. Perguntei se ele conversava sinceramente com ela. Disse que nunca.
Fui ao banheiro e chorei.
Vantagens, vantagens. Pagaram-nos cervejas. Chegou uma dose de uísque oferecida por um qualquer. Duvidei da qualidade. Mas o português me disse que era bom. Frio e gelo. Ela é tipo minha namorada, mas é mais que isso.
Ela é a minha melhor amiga e um tipo de amor incondicional.
Você é a mais sensível, né? Você é a mais apaixonada. Não, não, é recíproco.
Mas vamos embora, ele está me ligando. Vai nos encontrar na praça.
Virei o chapéu do palhaço. Droga. Não acho as moedas. Toma, toma. Uma nota de 10 reais e me desculpe.
Você deu muito mais dinheiro do que derrubou. Foda-se.
Vamos falar de coisas grandes. De coisas nossas. Ninguém aqui odeia ninguém, querida.
Ela tentou voar e eu tive medo que não conseguisse. Saltei atrás. E nós caímos.
Eu amorteci seu corpo? Mas minhas costas doem. E essas pessoas? Não posso chorar, não posso chorar.
Não encostem. Vamos chamar um médico. Quem estava de bicicleta? Não precisa nada disso, não precisa nada disso.
Posso mexer meus dedos dos pés. Vou arriscar sentar. Irmão, preciso de você para me levantar. Mais uma vez. Depois nós juntos, os quatro, podemos me manter de pé. Você ralou o joelho? Desculpem-me, desculpem-me. Eu choro por qualquer coisa. Dia maluco.
O mendigo demonstrou compaixão. Falou do siate. Não tem como não chorar. Ela também está chorando porque... isso é muito lindo.
Dia maluco, maluco demais.
Eu te levo pra casa. Vai dormir. Você ainda vai sair? Se eu não telefonar, é porque está tudo bem. Mas ligo pros dois pra contar que cheguei sã, ou, salva. Certo? Certo. Depois a gente conta essa história e dá risadas.
Não, mãe. Meus olhos estão vermelhos porque chorei. Estou com dor. Mas tudo bem, eu vou dormir. Não adianta fazer cara feia, não. Eu só tento e tento e tento ter vida. Tudo isso é necesário (porque é vivo). Do meu jeito de ser. Amanhã a gente conversa.
Boa noite. (Ah e, se puder, compra salompas).

quinta-feira, 10 de junho de 2010

mergulho.

A calma e acalma
nesse berço de balanço manso
que nos balança
como um barco incerto

Encosta o peito
no seio materno da vida
enquanto o tempo
corre sem freio

Deixa a resposta dos nós do seu cabelo,
junto ao seu travesseiro, sibilar

Dança comigo essa dança
de rodas e asfaltos
mas lento como o vento
que move nuvens devagar

Deixa as palavras e os gestos rasos,
no suor humano, se fazerem plenos

Que eu mesma mergulho
na profundidade do a-mar

(se o movimento inerte
dos nossos pés
for al-cansar)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

papel pautado.

carrego uma bomba no bolso
(vermelho)
que explode em tinta
letras
e linhas
como uma carta anônima

sábado, 29 de maio de 2010

crônica da sexta passada.

Óculos arregalados entraram na roda.

- Eu acho que nunca vi vocês por aqui antes. O que é que tem nesse cachimbo, hein? Dá um tapa, aí. Ah, isso é cannabis.

Têm que dançar.

- A gente paga o imposto que paga o salário do policial. Polícia mata bandido. Traficante mata devedor. Não faz sentido? O traficante de pedra mata o viciado que não pagou, ué. Viciado não sai matando e assaltando por aí, não é verdade? Não tô certo?

(das três vezes que fui assaltada, três foram por nóias)

- É, você tem razão, é. Viciado assalta sim. Mas da classe média, não. Quem fuma na classe média não assalta e nem mata. Vende tudo pra comprar, isso vende. Vende liqüidificador, tal. Mas polícia mata e a gente paga.

(e usuário de crack consegue se manter na classe média?)

- Olha, não tô entendendo o que é que você tá querendo dizer com isso, não.

Um corpo enrugado e magro se mexe nervoso dentro de uma jaqueta jeans grande demais.
Eu fui embora.

Quedas.

Aquele cheiro, a fumaça, a desidratação.
Tenho tanto a dizer a vocês, meus números 1, 2, 3 e, talvez, até ao 4 e ao 5.
Mas são coisas muito diferentes, muito diferentes para cada um.
Atrapalho-me com essa confusão de palavras.
São coisas muito diferentes mesmo, queridos.
Há a vontade de escorregar e a vontade de empurrar, vocês podem compreender?
(Não sei se são só 5, talvez sejam muito mais. Muito mais).
Essas coisas tão diferentes.
Estou me tornando repetitiva, números tantos?
É que essa variedade toda me confunde, confunde mesmo.
Acho que talvez eu não esteja entendendo aonde vocês querem chegar.
Eu, particularmente, não quero chegar a lugar nenhum, não.
Nenhum mesmo.
Está bom aqui, acho que está bom mesmo aqui.
Mas, então, há a vontade de escorregar e a de empurrar, sabe?
Mas são tantas quedas diferentes.
Talvez eu comece a gritar no meio do caminho, mas vocês não vão se incomodar.
Vão? Não, vocês não vão, não.
São tantos ouvidos e apenas um grito, acho.
Talvez dois gritos, um pouco mais.
Mas são muito, muito mais ouvidos.
Talvez eu queira uivar.
Uma lua em cada praça. Que tal?
Acho que alguns de vocês irão me acompanhar.
É, vão sim.
Eu estou sendo muito repetitiva, numerozinhos?
É que eu não consigo ir muito longe com as palavras, não consigo, não.
Talvez distração seja melhor do que desidratação.
Eu tinha pensado nisso antes, mas eu me esqueci.
É que seu rosto está tão seco, assim.
Tem alguma coisa a ver com química também, tem sim.
Mas não consigo me lembrar muito bem.
É, não consigo me lembrar.
Ah, sim! Sobre as quedas.
Várias quedas.
Acho que não consigo correr, aqui está tão bom.
Você pode ir mais devagar?
Não, não precisa me esperar, não.
É, nem está tão bom, mas está bom.
Não está?
As quedas, é, as quedas.
É verdade.
Já desliguei meu despertador.
Quero muito dormir.
Quero muito mesmo.
E aquele outro número?
Esqueci, esqueci o número.

Au au auuuuuuuuuu. Au au uuuuuuuuuuuu.

Sobre as quedas.
Não lembro, não.
Estou caindo de sono.
Outra hora eu tento, tento mesmo.
Mas não agora.

Auuuuuuuuuu.

(Eu caí uma vez e doeu).

segunda-feira, 24 de maio de 2010

noite de outro domingo.

- O adjetivo é terno, pro olhar.
- Acho um bom adjetivo.
- Não gosto da palavra, parece roupa.
- Não acho. Eu entenderia.
- Terno de ternura.
- Seu olhar é companheiro.

(Parece estar atento)

- Essa é uma das melhores combinações.
- Baseado e vinho.
- Um tira a acidez do outro.

( Eu não queria te descontrair)


- Menina, olha o carro!

- Acabei de ver a lua.
- Você também acha esse céu cinza demais?

- Menina, olha o carro!
- Menina o carro tá sendo roubado!

- Você ouviu isso? Lá longe.

(Crianças ainda gritam)


- Não se jogue no meio da rua.

- Menina com asas, ela tá indo embora.

(Que ódio dessas crianças
)

- Uma última frase.
- Uma última frase.
(Assim fica mais engraçado)


Mensagem salva como rascunho no meu celular, aproveitando a idéia da Ra - diálogo: Camila e Rodrigo (e as crianças chatas).

sábado, 22 de maio de 2010

lullaby.

seu nariz
branco de frio

fez cócegas no meu travesseiro


deita que
te cubro
meu gato mimado

(e canta os versos do seu miado
pra me fazer dormir)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

em segredo.

eu te amo
você
como amo o som
dos meus pés descalços
que pisam o molhado

(te amo em segredo)
nas tardes de inverno

no jardim de palavras
que pintei e te dou

amo a tônica estranha
que reconheço em você
em sete letras que são
como sete cores ou sons

(te amo em segredo)
que espio atrás da porta

com as mãos pequenas e os
olhos de engolir o mundo
te amo como não se ama
na presença e na ausência

(te amo em segredo)
como só se ama escondido

na falta de ar
de quem deita ao seu lado
sem com a pele tocar
ou quem olha no espelho
sem conseguir enxergar

te amo como quem ouve
sua risada no escuro
ao redor de sussurros
de desconhecidas mil vozes

(eu te amo em segredo)
em outros tantos idiomas

eu te amo em segredo
nas chuvas atrasadas
ou nas chuvas estrangeiras
que nos espremem os braços

e nas linhas periféricas
das rugas do seu rosto
vejo seu corpo sorrir
dos meus pés à cabeça

(te amo em segredo)
dessa fresta de amor

f.

ferida felina ferina

terça-feira, 18 de maio de 2010

20setembro1994.

- E então você apareceu. Um tanto suja, pequena e indefesa.
- E você...?
- Foi isso.

- Foi isso. Você estava suja, pequena e indefesa. Eu não tinha mãos para te segurar.
- Você não me quis?
- É claro que te queria. Eu tinha esperado tanto. Mas...
- Mas...?
- Não dava.
- E então você me recusou.
- Não, eu te recebi na minha casa e te dei metade de tudo o que eu tinha.
- Mas o tempo passou.
- Ele sempre passa.

- Ele sempre passa e, às vezes, mais afasta do que aproxima.

(E agora você está perto e inalcançável e eu ainda não tenho mãos para te segurar. Você ainda é pequena e frágil. E a sujeira que te sujava era a mesma sujeira que um dia me sujou. Alguns anos antes. 4 anos antes. Nem mais suja, nem mais limpa. Simplesmente irmãs. Ainda que nós nunca venhamos a ter essa conversa).

segunda-feira, 17 de maio de 2010

noite de domingo.

- Pra onde a gente vai?
- Viver.
- Como assim?
- No Uruguai.
- Assim, no Uruguai?

(Não esquece de salvar)

- Onde a gente parou?
- No começo.
- Pode ser um só a dois?
- Não sei, a gente tá só tentando usar a mesma linguagem.
- Você me odeia?

(A outra pessoa mexe a cabeça afirmativamente)

- Quanto?



mensagem salva como rascunho no meu celular - diálogo: Camila, Raysa e Rodrigo.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

02.05.10 ou para Raysa.


foto: Raysa Fontana

Em cima do mar, o céu se estendia em arco-íris. Azul, roxo, rosa, laranja. A Ra diz: "Olha a cor do mar refletindo as nuvens". E enquanto ela retratava as cores, eu esboçava formas-letras de congelar essa felicidade. O improviso, o instantâneo, o imediato. Ía escurecendo aos poucos. Ventava com gosto de sal. O dia eterno que tentava acabar. E nós resistíamos - com toda a nossa força, ficávamos. Há um banco em frente à areia. Nossas costas são a barreira da noite. E então eu entendi o sensível das coisas - o amor que salta entre olhos azuis e verdes. E voa sob a maresia do futuro inverno. Do dia que acaba de acabar.


O Relato: "tô aqui na frente", foi o telefonema que recebi. No domingo curitibano, não achávamos refúgio. Aí surgiu a ideia: vamos para a praia. Combustível, dinheiro, vontade. Algumas horas até acharmos o litoral - chegamos em Itapoá e tudo era bonito e vazio. Só víamos dois pescadores. Distraídos, com baldes pequenos demais para peixes de um dia todo. Uma casinha de frente pro mar - abandonada pelos salva-vidas. Tarde de sol, muito sol. Nós estávamos tão felizes que, depois de fotos e textos, não existiam mais palavras. Apareceu uma coruja. Eu nunca tinha visto uma coruja de tão perto - e nem sabia que os olhos não eram tão grandes assim - e ela nos acompanhou mais uma, duas vezes. Tomei toddynho sentada de frente pro mar. Tão doce e tão salgado. Antes de anoitecer, o céu experimentou combinações de mil tons coloridos. Nuvens lindas que pareciam pintar uma tela imensa acima de nós. Estava chegando a hora de ir embora - ninguém sabia que estávamos lá e logo meu celular começaria a tocar desesperadamente. Mas não podíamos ir embora assim, sem mais nem menos. Molhamos os pés. O contato breve com a água foi fatal: não dava para resistir. Já estava escuro, praia deserta. Tiramos nossas roupas e afundamos. Eu não tomava banho de mar há anos - nunca me senti tão limpa. Infelizmente nós tínhamos de deixar pra trás aquele dia. Seguir a estrada, literalmente. Mas, de tão difícil que era, nossa resistência se camuflou ao engarrafamento. E foram tempos e tempos andando a 2km/h. Um deslizamento de barreira, a explicação. E meu celular tocando e tocando e eu sem a menor vontade de abandonar aquela sensação. Meu corpo ainda escorria, os cabelos molhados. Mas era inevitável, chegamos em Curitiba. Cheguei com a certeza de ter compartilhado, durante toda uma tarde, verdades.

p.s. I love you.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

pé pro alto...


... cabeça no chão.

segunda-feira, 19 de abril de 2010


Meu gato tem
um jeito manso de andar

A preguiça sugere peso às patas
e ele segue sem pressa alguma

como saído de uma rua escura
ou de uma janela para a lua

ou da ninhada de guepardos
coberta pelo corpo quente da mãe
que dorme e protege


Ele - O Gato
tece linhas com sombras de seu bigode
cria um rastro pela casa
Devagar, bem devagar

Cada passo é
para quatro patas
um único passo


O sobe e desce das
lombadas das suas costas

dá um ritmo doce ao seu caminho
Que logo, longe, faz-se longo

quarta-feira, 14 de abril de 2010

3ª pessoa do singular.

Acordou no meio da noite. Como de costume. Mas, dessa vez, a sensação era de que deveria se esforçar para entender como a enxergavam - se é que alguém realmente a via. Essa era uma antiga obsessão. Uma antiga obsessão masoquista e doentia - pois fantasiar distorções a seu respeito era um artifício de auto-destruição.
Sentia como se precisasse do olhar do outro para confirmar sua existência. Era incapaz de conceituar a si própria. Ela sempre deixava que seus pensamentos se perdessem em outros pensamentos - até que eles a tornassem um ser amorfo e egoísta. Não estava livre de seus vícios.
Quando criança, achava estranho não conseguir enxergar o próprio rosto. Afinal, não somos nossa cabeça? Ali onde se concentram os sentidos e as impressões, o próprio raciocínio. Achava que se deixasse entrar água em seus ouvidos, seu cérebro iria ser lavado - e as coisas ruins se afogariam e iriam embora assim que ela chacoalhasse a cabeça para cima e para baixo.
Mas sua madrugada era como uma sala de espelhos. Daqueles que engordam, esticam, misturam. Era impossível achar o espelho da realidade. Era impossível congelar as frases emitidas por outras pessoas na tentativa de decifrá-la. Tudo tão doído e questionável.
De repente, acordou. E lá estava seu gato esfregando a cabecinha em pedido de carinho. Seu gato de olhar compenetrado que podia durar horas, dias. Aquilo era a grande questão: era impossível imaginar o que o gato imaginava sobre ela. Ela nunca foi gato para tentar entendê-lo. Então o olhar era vazio e simples. Era ela e o gato se olhando como realmente são. Nada de críticas ou elogios. E o reflexo naquele amarelo esverdeado nem a incomodavam mais.
Acomodou-se junto ao corpinho miúdo. Afagou os pelos negros e macios. Pensou nos planos para o dia seguinte e voltou a dormir.

out of poket.


terça-feira, 13 de abril de 2010

13 de abril.



sábado, 10 de abril de 2010

Take me out tonight.

(menina
encontrei alguém com quem dividir
as noites frias e as doçuras frisantes)

Qualquer lugar é praia - quando se junta areia e mar. E, se faltar gasolina, paramos ali. Numa rua qualquer. Árvore solitária. Mundo imaginário da nossa ideia perfeita - silêncio e esconderijo - do carro estacionado no escuro. Janelas fechadas. Plocs das garrafas de vidro. Eu e você, inventando segredos-crianças e países-imagens

distantes.


And they are young and alive.
Driving in your car I never never want to go home.

Smiths

sexta-feira, 9 de abril de 2010

quinta-feira, 8 de abril de 2010

roda-mundo.



quarta-feira, 7 de abril de 2010

7 de abril - mais um significado.

3 anos de encontro fatal entre gato e pássaro.

Exatamente como tinha de ser.

Especial de aniversário.

M A R C O : é A M O R e ainda sobra um C.
C de C A M I L A : que sem o C e com um G no lugar do L fica A M I G A.
Mas o que são letras e palavras se a gente tenta e tenta e tenta traduzir algo de nosso mas não consegue alcançá-lo? Letras e palavras são finitas demais.
No dicionário, Amigo é s.m. Homem ligado a outra pessoa por laços de amizade; defensor; aliado. No verso da folha, está escrito Amor s.m. Afeição profunda; objeto dessa afeição; conjunto de fenômenos cerebrais e afetivos que constituem o instinto sexual; afeto a pessoas ou coisas; paixão; entusiasmo.


Imagens também não são o suficiente. Elas podem traduzir o sorriso, a falta de vergonha, a cumplicidade e o carinho. Mas o amor, ah, isso elas não podem dizer.
Mas nós, Marcão - ão de irmão, somos os que sabem amar.
Foi em você que eu aprendi que é possível se sentir em casa, porque a minha casa é você. Meu protetor, meu confidente, meu companheiro, meu melhor amigo.
E se eu nunca sonho com você, eu sempre sonho junto com você. Porque somos inseparáveis, unidos não só pelo cachecol.
E é com você que eu compartilho o meu melhor e o meu pior. Porque você é a maior intimidade conquistada.
Nós somos completamente diferentes e sabemos disso. Mas é aí que se esconde o nosso segredo: somos nossa parte que nos falta.
E quantas coisas eu não teria deixado de viver se não fosse com você? Desde roubos de carrinho de supermercado, pijama no museu, viagens aleatórias, dança celta no final da tarde, palhaços no reveillon, fantasiados no James, poledance no Blues Velvet, drag queen na webcam, saltinhos em show de metal, reforma de guarda-roupa, faxina na casa, acordar bêbada no parque barigüi às 10h da manhã, ir pra casa de um desconhecido em Floripa, andar por bairros afastados e estranhos em São Paulo, subir as colinas de Asklan no Campeche, fazer planos e mais planos, assinar uma promessa de ir embora pra Europa, sair pra fotografar, pra pintar, pra escrever, pra criar, pra montar uma banda mexicana, pra tantas outras coisas que demorariam 4 anos para serem contadas.
Enfim, não acho que possa existir um sentimento mais real e profundo do que esse. Quero você comigo para sempre - e sempre ainda seria muito pouco tempo. Você é meu salvador.
Obrigada pelas vezes em que te liguei chorando e você veio até mim - por mais longe que estivesse, até em outra cidade. Obrigada por todas as vezes em que brigamos - e por tudo o que aprendi com isso. Obrigada por todas as vezes em que você permitiu que eu tivesse meu tempo sozinha - mesmo quando você estava precisando de mim. Obrigada por ter se tornado um filho para a minha mãe e um irmão para mim. Obrigada por me deixar segura. Obrigada por acreditar em mim. Obrigada pelas coisas que você já pagou. Obrigada pelos passeios e vivências. Obrigada por todas as vezes em que você confiou em mim. Obrigada por todas as vezes em que você me acompanhou. Obrigada por nunca nunca nunca ter me abandonado.
São tantos obrigadas que talvez eu devesse resumir: SOU GRATA.
Aceito você em sua totalidade - com todos os defeitos e todas as qualidade. E te admiro plenamente.

Amo você, meu querido. E pra você toda a felicidade do mundo.
Melhor amigo.

Anedote.

Em uma quinta-feira de março, encontrei um amigo por acaso. Na mesma noite, ele me apresentou um de seus colegas de faculdade. De repente esse novo conhecido me pendurou nos ombros e começou a girar.
Aí ele perguntou: é assim que você se sente?
Como? De cabeça para baixo e com o mundo rodando? Suspensa?

É, às vezes...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Manual prático do transporte coletivo.

No elevador, as distâncias devem ser milimetricamente calculadas. Deve-se ficar equidistante de cada passageiro. Em caso de apenas dois usuários, fica-se o mais longe possível. Se o elevador está lotado, espere o próximo. Se o elevador está vazio, desfrute da sua confortável liberdade - certifique-se de que não há câmeras de segurança.
Se a respectiva construção for de uso público - ou se em cada andar houver mais de um apartamento - lembre-se de lavar as mãos ao chegar ao seu destino.
O contato humano deve ser evitado. Não nos responsabilizamos por partes deixadas no interior do veículo. (livre interpretação aqui).
O espelho é sempre um perigo. Lembre-se que olhar para os outros através dele só faz com que você veja a si mesmo.

obs. O elevador sempre subirá e descerá sem necessariamente chegar a lugar algum. As pessoas participantes do trajeto nada mais são do que passageiras - em todos os sentidos atribuídos à palavra. E 'bom dia' é gentileza - porque ninguém vai se importar se o seu dia foi ou não ruim. Ainda assim, não seja grosseiro. Isso seria se expor ao ridículo de se tornar um ser humano.

Sem "de" ou sem "para".

De que me serve um abraço torto
se as garras
(como as palavras)
estão afiadas e fincadas em mim?
Então aqui fizemos a curva definitiva: agora nos aproximamos da nossa distância e transformamos a calma em ódio e vazio. Existem palavras dentro e fora de casa - na nossa existência de caracol. E as letras mastigam a vida para que possamos engolí-la. Não deixe que elas escapem pelos seus dedos. Mas também não os cerre demais - a ponto de te impedir de agarrar outras mãos.

sábado, 3 de abril de 2010

Manhã de sábado.

Deitamos um em frente ao outro. Olhos fechados - embora às vezes eu aproveitasse para espiá-lo. E você, você se moveu para frente. Encostou sua cabecinha na ponta do meu nariz. Os fios que saíam do seu rosto fizeram cócegas no meu sorriso. Eu podia sentir o peso e o cheiro dos seus pelos. Suas garras me acarinhando. Do seu retrato em preto e branco - o mais colorido deles - vejo escapar à regra duas bolas amarelas. Talvez verdes. Um redemoinho de tons entrelaçados e profundos. Nossos gestos são palavras que não precisam ser pronunciadas. Gosto de vê-lo sob o sol. Dormindo em posição fetal, todo tortinho. Gosto de me ver refletida no seu olhar. Sei que você me enxerga assim. Simples. Reconheço a sua voz e você a minha - quando nos chamamos no silêncio. A sua sinceridade é o amor mais puro do mundo. Solitário como só um gato pode ser.

quarta-feira, 31 de março de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

Luz-noite.

anoitece em claro
nesse quarto insone
quase horas, quase dias
quatro luas e um sol
pendurados na janela
apaga a luz
apaga os olhos
e deixa o escuro te cobrir

Sono.


Esse gato

parece um rei
Com seu colarinho branco
e sua capa escura



É o rei das panteras

pumas, tigres, leões
Rei dos felinos
e das mulheres da minha casa

Enquanto ele dorme
em minha cama
Eu afago a cabecinha
do Sono adormecido

Pequeno
ele ronrona

Gato preto
do colarinho branco
Você é como um rei
E meu colo é seu trono